José de Faria Costa
Diário de Coimbra, 21/11/08
A pluralidade de compreensões do mundo e das coisas e o jogo democrático — mesmo quando se está no terreiro da discussão universitária ou talvez, de forma reforçada, precisamente por aí se estar — são elementos essenciais para a vivificação de qualquer comunidade. Seja esse refrescamento atinente à eleição de órgãos para a mais pequena junta de freguesia, seja‑o quando toca a eleição de órgãos para a mais antiga universidade portuguesa. É, pois, bom haver eleições onde o confronto de ideias e de projectos se mostrem.
Faço parte da Lista A (Uma nova ambição para a Universidade de Coimbra) que concorre à eleição para o Conselho Geral da Universidade de Coimbra e não tenho nenhuma legitimidade acrescida para estar hoje, neste local, a escrevinhar sobre o sentido desta candidatura. Faço‑o na plenitude de um direito “antigo” e incomprimível: o de exprimir de forma livre e responsável o que penso, aqui e agora. E, para lá de tudo, estou a fazê‑lo de maneira simples e absolutamente comprometida. Com os únicos comprometimentos que conheço: os da verdade, lealdade e rigor intelectuais e ainda da razão crítica.
É bom estarmos de acordo (e outra coisa não seria de esperar de universitários) que o que se vai escolher é tão‑só um Conselho Geral. Nada mais: sublinhe‑se a traço grosso. No próximo dia 24, os universitários de Coimbra vão unicamente ser chamados a escolher os membros não cooptados do Conselho Geral. O que se vai formar, depois da eleição, é, por conseguinte, um pedaço de um órgão colegial (o órgão só assumirá a plenitude depois da integração dos membros cooptados). Mas isso não basta. É absolutamente necessário não deixar de afirmar que se quer que esse órgão se mantenha vivo e actuante e não seja uma mera representação formal de outras políticas ou de outras acções. Que não seja, em suma, caixa de ressonância ou tão‑só instância legitimadora de decisões materialmente descaracterizadas. O Conselho Geral será, obviamente, sempre dentro dos limites da lei, aquilo que os seus futuros membros quiserem. E ao dizer isto não se está a fazer vã retórica ou a tocar as franjas reprováveis de insalubre populismo ou demagogia mas, antes, a reafirmar princípios e a defender coerência para o presente e ainda para actuações futuras.
É bom sermos todos pela internacionalização. Mas isso não basta. É preciso fazer uma internacionalização consequente e não confundi‑la com mobilidade ou até com intercâmbio escolar ou docente. É urgente, pois, escolher criteriosamente as instituições universitárias estrangeiras com quem queremos aprofundar e concretizar objectivos e realizar tarefas conjuntas de investigação e ensino de excelência. Se temos territórios universitários preferenciais — e aqui a lusofonia é um patamar que não pode ser descurado — é bom não esquecer que a investigação de ponta está alhures. É também por aí que temos o dever de ir. De ir de forma consistente e intelectualmente sustentada.
É bom defendermos, todos, o consenso como linha de horizonte no qual nos devemos mover e que, para além disso, uma tal projecção de comportamento cívico deve ser assumida como pilar de um outro valor absolutamente essencial para a vida colectiva democraticamente fundada: a tolerância. Mas isso não basta. O consenso não é um absoluto — aliás, nas sociedades democráticas não há absolutos, a não ser a temporalidade histórica, ninguém escapa ao senhorio do seu tempo — é antes um valor instrumental que deve e tem de ser testado pelo confronto, pela polémica, pelo voto. Os avanços, as decisões que fazem avançar, têm, não poucas vezes, de ser levados a cabo pela regra de ouro da polémica, do confronto que se cristaliza, para bem de todos e democraticamente, no voto que determina maiorias que decidem. Todavia, ao irmos por este tipo de argumentação não se está a fazer qualquer exaltação do conflito. Bem pelo contrário. O que se está é a redimensionar que o material decisório, vale por dizer, as decisões que se têm de tomar, não podem ser exclusiva ou preferencialmente procuradas na coutada apaziguadora da terra do consenso. Mas se isso aí acontecer? Então, melhor ainda. Todavia, o que não pode acontecer é a paralisia determinada por miríficos e inatingíveis consensos. Uma tal reflexão ganha, em meu juízo, uma dimensão suplementar de ressonância quando estamos a trabalhar com órgãos colegiais. Daí este repensar ligeiramente longo no que toca a este ponto.
É bom cada uma das listas afirmar as suas diferenças face, evidentemente, às outras. Mas isso não basta. É ainda estritamente necessário que nos afastemos de análises de natureza sociológica (sobretudo quanto à génese, gestação e nascimento) sobre a sua natureza. As listas estão aí. Esse o dado. Todas elas formadas por universitários e académicos que conhecemos. Todas elas formadas por universitários e académicos responsáveis. Todas elas apresentaram — e esse é que é o ponto relevante — um catálogo de propostas que pode ser lido como declaração de princípios, como linhas programáticas ou até, em alguns pontos, como formulações de governação. Deixe‑se o juízo crítico aos nossos Colegas votantes sobre o sentido de cada uma das propostas e não se resvale para desadequados processos de deslegitimação que não enobrecem ninguém.
É bom estarmos todos de acordo de que tem de haver mudanças. E até podemos ir ao limite de aceitar que tem de haver mudanças profundas. Isto é bom. Mas isso não basta. É indesmentivelmente necessário e urgente perceber, através de linhas estratégicas muito bem desenhadas, dir‑se‑ia com o rigor do estilete — e essa é uma das tarefas do Conselho Geral —, a definição das prioridades e os tempos da sua concretização. E aqui, assumir, precisamente, a ambição que caracteriza a Lista A. Mudanças implicam alterações de interesses instalados. Mudanças implicam seriedade e justiça na decisão mas, simultaneamente, firmeza na sua prossecução. O Conselho Geral, enquanto órgão colegial e sempre que for essa a sua competência, não pode cair na trapaça da vaguidade e da fluidez decisórias. Mudanças implicam procura de melhores soluções para benefício de todos mas, por sobre tudo, para benefício da própria Universidade. Por isso, a procura das melhores soluções, mesmo que à custa de mudanças profundas, não é mais do que o patamar mínimo onde se inscreve o imperativo ético de qualquer governação, sobretudo de um órgão colegial com a natureza e as competências do futuro Conselho Geral.
Faço parte da Lista A (Uma nova ambição para a Universidade de Coimbra) que concorre à eleição para o Conselho Geral da Universidade de Coimbra e não tenho nenhuma legitimidade acrescida para estar hoje, neste local, a escrevinhar sobre o sentido desta candidatura. Faço‑o na plenitude de um direito “antigo” e incomprimível: o de exprimir de forma livre e responsável o que penso, aqui e agora. E, para lá de tudo, estou a fazê‑lo de maneira simples e absolutamente comprometida. Com os únicos comprometimentos que conheço: os da verdade, lealdade e rigor intelectuais e ainda da razão crítica.
É bom estarmos de acordo (e outra coisa não seria de esperar de universitários) que o que se vai escolher é tão‑só um Conselho Geral. Nada mais: sublinhe‑se a traço grosso. No próximo dia 24, os universitários de Coimbra vão unicamente ser chamados a escolher os membros não cooptados do Conselho Geral. O que se vai formar, depois da eleição, é, por conseguinte, um pedaço de um órgão colegial (o órgão só assumirá a plenitude depois da integração dos membros cooptados). Mas isso não basta. É absolutamente necessário não deixar de afirmar que se quer que esse órgão se mantenha vivo e actuante e não seja uma mera representação formal de outras políticas ou de outras acções. Que não seja, em suma, caixa de ressonância ou tão‑só instância legitimadora de decisões materialmente descaracterizadas. O Conselho Geral será, obviamente, sempre dentro dos limites da lei, aquilo que os seus futuros membros quiserem. E ao dizer isto não se está a fazer vã retórica ou a tocar as franjas reprováveis de insalubre populismo ou demagogia mas, antes, a reafirmar princípios e a defender coerência para o presente e ainda para actuações futuras.
É bom sermos todos pela internacionalização. Mas isso não basta. É preciso fazer uma internacionalização consequente e não confundi‑la com mobilidade ou até com intercâmbio escolar ou docente. É urgente, pois, escolher criteriosamente as instituições universitárias estrangeiras com quem queremos aprofundar e concretizar objectivos e realizar tarefas conjuntas de investigação e ensino de excelência. Se temos territórios universitários preferenciais — e aqui a lusofonia é um patamar que não pode ser descurado — é bom não esquecer que a investigação de ponta está alhures. É também por aí que temos o dever de ir. De ir de forma consistente e intelectualmente sustentada.
É bom defendermos, todos, o consenso como linha de horizonte no qual nos devemos mover e que, para além disso, uma tal projecção de comportamento cívico deve ser assumida como pilar de um outro valor absolutamente essencial para a vida colectiva democraticamente fundada: a tolerância. Mas isso não basta. O consenso não é um absoluto — aliás, nas sociedades democráticas não há absolutos, a não ser a temporalidade histórica, ninguém escapa ao senhorio do seu tempo — é antes um valor instrumental que deve e tem de ser testado pelo confronto, pela polémica, pelo voto. Os avanços, as decisões que fazem avançar, têm, não poucas vezes, de ser levados a cabo pela regra de ouro da polémica, do confronto que se cristaliza, para bem de todos e democraticamente, no voto que determina maiorias que decidem. Todavia, ao irmos por este tipo de argumentação não se está a fazer qualquer exaltação do conflito. Bem pelo contrário. O que se está é a redimensionar que o material decisório, vale por dizer, as decisões que se têm de tomar, não podem ser exclusiva ou preferencialmente procuradas na coutada apaziguadora da terra do consenso. Mas se isso aí acontecer? Então, melhor ainda. Todavia, o que não pode acontecer é a paralisia determinada por miríficos e inatingíveis consensos. Uma tal reflexão ganha, em meu juízo, uma dimensão suplementar de ressonância quando estamos a trabalhar com órgãos colegiais. Daí este repensar ligeiramente longo no que toca a este ponto.
É bom cada uma das listas afirmar as suas diferenças face, evidentemente, às outras. Mas isso não basta. É ainda estritamente necessário que nos afastemos de análises de natureza sociológica (sobretudo quanto à génese, gestação e nascimento) sobre a sua natureza. As listas estão aí. Esse o dado. Todas elas formadas por universitários e académicos que conhecemos. Todas elas formadas por universitários e académicos responsáveis. Todas elas apresentaram — e esse é que é o ponto relevante — um catálogo de propostas que pode ser lido como declaração de princípios, como linhas programáticas ou até, em alguns pontos, como formulações de governação. Deixe‑se o juízo crítico aos nossos Colegas votantes sobre o sentido de cada uma das propostas e não se resvale para desadequados processos de deslegitimação que não enobrecem ninguém.
É bom estarmos todos de acordo de que tem de haver mudanças. E até podemos ir ao limite de aceitar que tem de haver mudanças profundas. Isto é bom. Mas isso não basta. É indesmentivelmente necessário e urgente perceber, através de linhas estratégicas muito bem desenhadas, dir‑se‑ia com o rigor do estilete — e essa é uma das tarefas do Conselho Geral —, a definição das prioridades e os tempos da sua concretização. E aqui, assumir, precisamente, a ambição que caracteriza a Lista A. Mudanças implicam alterações de interesses instalados. Mudanças implicam seriedade e justiça na decisão mas, simultaneamente, firmeza na sua prossecução. O Conselho Geral, enquanto órgão colegial e sempre que for essa a sua competência, não pode cair na trapaça da vaguidade e da fluidez decisórias. Mudanças implicam procura de melhores soluções para benefício de todos mas, por sobre tudo, para benefício da própria Universidade. Por isso, a procura das melhores soluções, mesmo que à custa de mudanças profundas, não é mais do que o patamar mínimo onde se inscreve o imperativo ético de qualquer governação, sobretudo de um órgão colegial com a natureza e as competências do futuro Conselho Geral.
Por tudo isto estou na lista A. Por tudo isto e muito mais, assumo a atitude espiritual de valorar as coisas como valorei. Por tudo isto considero que esta é uma oportunidade fantástica de se fazer com que a nossa “velha” mas sempre renovada Universidade se assuma, neste dealbar de século, como um território de futuro onde reine a ambição.